sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Ano olímpico

Compreendo os ansiosos e sou um deles, mas não desta vez. O espaço de quatro anos entre uma e outra edição dos Jogos Olímpicos é demasiado, embora, perto do fim, os períodos temporais, sejam quais forem, pareçam ter passado mais rapidamente do que a demora sugere. Pois já faz dois Jogos de Inverno, dois Pan-Americanos, uma Olimpíada em Londres, uma Copa na África e outra no Brasil que Jacques Rogge anunciou o Rio como sede olímpica. No entanto, dito numa frase, é como se fora há um disparo de arqueiro. Espero é que 2016 passe desatento ao cronômetro.

A discussão sobre atletas, estilos e números, a especulação sobre o quadro de medalhas, os pré-olímpicos, os índices obtidos por centésimos ou inatingidos por milésimos, a expectativa das convocações, dos sorteios dos grupos e do chaveamento nos mata-matas, o passeio do Fogo Sagrado de Olímpia até este lado do Atlântico e pelo território nacional. É preciso degustar com paciência relojoeira o ano dos Jogos Olímpicos, querer que agosto não se apresse a chegar, que o calendário marche pausadamente e a longos intervalos em cada esquina ou estação.

Seria um desperdício os Jogos começarem já. Eles subvertem o calendário, fingem durar 18 dias e, quando cuidamos que é a vez deles, os pontos na quadra, o tempo nas raias, a nota de partida e a linha de chegada se apresentam confusamente, dão ríspido apagamento à Chama, e desanimaremos que ainda faltem quatro anos e 12 horas de fuso para que se desloquem a Tóquio.

É quando entenderemos que, desde a espera imposta pelo comitê olímpico até a última medalha pendurada no peito, tudo esteve mais para 100 m rasos do que para maratona, ainda que pensássemos tratar-se de maratona, e que nada foge a esse destino inescapável. Nem mesmo a Maratona.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Ao Canadá, Mr. Blatter?



Pergunta:

Reeleito presidente da Fifa, será que Joseph Blatter vai ter coragem de ir à Copa do Mundo feminina de Futebol, no Canadá?

Dados os últimos acontecimentos, não é demais perguntar se o mandatário da Fifa, protegido da extradição para os Estados Unidos em sua terra natal, teria coragem de sair da Suíça. Pior: ir para o Canadá.

Não duvido de que ao menos não passe pela cabeça do cartola que podem ter deixado para cumprir um mandado de prisão contra ele quando ele estiver, previsivelmente, despojado da armadura diplomática, o que, no Canadá, parceiro histórico do Tio Sam, é latente.

A Copa do Mundo feminina de Futebol começa no próximo sábado, 6 de junho, e vai o dia 5 de julho. O Canadá pode ser que espere por Joseph Blatter. E meu palpite na casa de apostas é de que os EUA também.

Foto: wikipedia.com

sábado, 31 de janeiro de 2015

A morte de Lázaro



Consta que ele tombou pouco depois de correr 29 Km. Os companheiros de delegação que o esperavam seis quilômetros à frente estranharam seu atraso. Deram-se a procurá-lo de carro e em sentido inverso ao do trajeto original da prova, mas sem sucesso. Foram informados de que o encontraram caído, inerte, e que fora socorrido. No hospital, os médicos pensaram, a princípio, que fora acometido de meningite. Mas quando morreu na manhã seguinte, em 15 de julho de 1912, a autopsia indicou que uma violenta desidratação é que havia cobrado as forças do maratonista português Francisco Lázaro, o primeiro morto no campo de embates do olimpismo moderno.

Seis atletas compunham a primeira delegação lusófona a arrojar-se em disputas olímpicas. Os portugueses participantes dos Jogos de Estocolmo/1912 eram dois lutadores da modalidade greco-romana, um esgrimista e três corredores - um de provas de 100 e 200m rasos, outro de 400 e 800m e Francisco Lázaro. Quando o Rei da Suécia Gustavo V deu por inaugurados os Jogos Olímpicos, era o maratonista quem portava a Bandeira Portuguesa.

Lázaro era carpinteiro. Naqueles tempos do amadorismo, seu treinamento se restringia a correr o trecho compreendido entre a casa e o trabalho. Em 1910, venceu a Maratona de Lisboa, na primeira vez em que a prova disputada na capital lusitana tinha distância olímpica. Meses antes de embarcar para a Suécia, já em 1912, ele venceu uma maratona com uma marca cerca de dois minutos melhor do que a que Dorando Pietri em Londres, quatro anos antes, quando o italiano venceu e foi desclassificado por ser acudido por fiscais antes da chegada. Francisco Lázaro, portanto, era a maior (e única, também) esperança portuguesa de conquista de medalha em Estocolmo.

Um a um, os portugueses deixam as disputas sem nenhuma grande façanha e apenas com um resultado de relevo - Armando Cortesão chegara às semifinais dos 800m rasos. Francisco Correia não avançou à segunda fase de disputa na espada, perdera os dois duelos da fase de grupos. Joaquim Vital e António Pereira perderam as duas primeiras lutas no wrestling e também foram eliminados. António Stromp não fora além da primeira bateria nas provas de velocidade no atletismo. Restava a maratona - que, diferente do que acontece hoje, não era no último dia dos Jogos.

Os cinco atletas dividiram-se pelo percurso para aguardar a passagem de Francisco Lázaro e assegurar que ele bebesse água. Os que foram à largada, no Estádio Olímpico, viram o compatriota untando-se numa mistura de clara e gema de ovos, água destilada, terebintina e ácido acético. A emborcação, como era chamado o preparo, era muito popular entre os ciclistas, pois se acreditava que desse resistência aos músculos. Vendo que a mistura vedava os poros e que a temperatura era elevada - relata-se que, no tiro de partida, dado pouco antes do meio-dia, a temperatura fosse de 32º C - eles tentaram persuadi-lo a molhar-se e tirar todo o sebo que lhe cobria o corpo, mas a urgência da largada preponderou. E ainda, entre os 68 corredores, consta que ele e o japonês Shizo Kanakuri eram os únicos que não tinham qualquer proteção para a cabeça contra o sol do verão escandinavo.

A história de Kanakuri foi uma odisseia. Por 18 dias, ele viajou de navio e pelo trem da ferrovia transiberiana, e chegou aos Jogos cinco dias antes da maratona. Durante a prova, com 30 Km percorridos, bateu numa porta pedindo um copo d'água. Entrou na sala, tomou a água, deitou-se num sofá para descansar e só acordou no outro dia. Sua aventura olímpica não parou em Estocolmo, e ele ainda correu as maratonas da Antuérpia/1920 e de Paris/1924. Em 1967, ele voltou à capital sueca e, num gesto bastante simbólico, percorreu os quilômetros que lhe faltaram em 1912. Uma sorte que Francisco Lázaro não teve.

Por alguns quilômetros, o português até conseguia acompanhar o pelotão dianteiro. Mas, aturdido pelo calor e na subida de uma ladeira, Francisco Lázaro cambaleou e caiu. Um médico o levou ao hospital, mas ele não resistiu. O calor somado ao esforço, por alguns anos, sempre foram apontados como os fatores preponderantes que interromperam a corrida de Lázaro. Entretanto, um dos médicos que periciaram o corpo do corredor disse também que seu fígado estava comprometido.

Como ocorria a Dorando Pietri, Francisco Lázaro também ingeria estricnina, substância comumente utilizada como doping naquela época. É bem possível, assim, que a morte do português tenha resultado da desidratação, do cansaço e da ingestão de uma substância dopante tolerada no período.

Além disso, cumpre dizer que o sul-africano Ken McArthur foi vencedor com o tempo de 2h36m54s, uma marca mais de 15 minutos melhor do que o recorde pessoal de Lázaro. Se o português, de fato, acompanhou os líderes por boa parte do trajeto, é provável que tenha empreendido um esforço inesperado que o tenha desgastado ainda mais.

Cinco dias depois de sua morte, o Estádio Olímpico de Estocolmo rendeu homenagens ao maratonista caído. Francisco Lázaro, dizem, prometera vencer ou morrer. E cumpriu a promessa pela alternativa pior entre todas.

A primeira medalha olímpica de Portugal só viria em Paris/1924, com o bronze da equipe de saltos, no hipismo. E se a contabilidade do olimpismo português tem apenas quatro medalhas de ouro para mostrar, todas vieram do atletismo, o esporte de Francisco Lázaro; três em provas de longa distância, como as de Francisco Lázaro; e destas, uma de Carlos Lopes, em Los Angeles/1984, e outra de Rosa Mota, em Seul/1988, maratonistas, como Francisco Lázaro, o primeiro herói olímpico que falava português, morto aos 21 anos.

Imagem: wikipedia.org

domingo, 18 de janeiro de 2015

Ledecky demais


Em 2012, Katie Ledecky venceu os 800m nado livre nas Olimpíadas de Londres. Em 2013, venceu os 400, 800 e 1500m livre do Mundial de Barcelona e fez parte do revezamento campeão do 4x200. Em 2014, a norte-americana estabeleceu o recorde mundial dos 400, 800 e 1500 livre, num espaço de dois meses.

Pois em 2015, na etapa de Austin, do Arena Pro Swim, Katie Ledecky venceu os 100, 200, 400 e 800 livre, sendo que, nesta última, ontem à noite, ela estabeleceu a segunda melhor marca da história da prova, ficando a 21 centésimos de seu próprio recorde. Dá para imaginar o que vem por aí no Mundial de Kazan, em julho e agosto deste ano, na Rússia, e nas Olimpíadas do Rio.

Escute a empolgação do narrador americano com os 800 metros de Ledecky, ontem à noite, e veja como ela - que só completa 18 anos em março - lutou contra o cronômetro até a última braçada.


 

Imagem: twitter.com/USASwimming

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Tudo fake, seu sheik



O público anunciado de 11,5 mil espectadores é mentira. A vitória do Qatar sobre o Brasil por 28 a 23, uma farsa.

Não que 11 mil e poucos ingressos não tenham sido vendidos para a abertura do Mundial masculino de Handebol do Qatar nem que uma seleção do oriente médio não possa vencer a seleção brasileira da modalidade. Não se trata disso.

Mas dizer, por essa foto, que a torcida ocupe mais de três quartos das arquibancadas do ginásio é tão crível quanto achar que um time com Danijel Saric, Zarko Markovic, Bertrand Roine, Rafael Capote, Eldar Memisevic seja, de fato, uma seleção do Qatar.

O ginásio de Lusail - muito bonito, diga-se - tem capacidade para 15 mil pessoas. É possível que um sheik tenha comprado um monte de ingressos e não tenha encontrado gente suficiente para distribuí-los - isso parece que ocorre nos amistosos que o futebol manda pra lá. Assim como é bem possível que algum sheik tenha investido pesado para que a seleção de seu país tivesse menos Youssefs e Muhammads e mais gente da zona do euro. Possível. E lamentável.

Se, para um país que vai receber Copa do Mundo de Futebol, Mundial de Atletismo e ainda sonha com Olimpíadas, investir no esporte signifique fabricar público e contratar estrangeiros para o time da casa, é porque o esporte fracassou nessas bandas. Tudo falso demais.

Imagem: twitter.com/2015Handball